Mulheres em cargos de decisão: um retrato da sub-representação em Portugal

Portugal registou progressos importantes na representação política das mulheres nas últimas décadas. Diversos diplomas legais contribuíram para aumentar a presença feminina nas listas eleitorais e nos órgãos de administração. No entanto, a igualdade formal não se traduziu automaticamente em igualdade efetiva no exercício do poder, na distribuição de responsabilidades executivas ou na ocupação de posições de maior visibilidade e influência.

Ainda que constituam 52,2% da população portuguesa (dados dos Censos de 2021), a representação das mulheres na política em Portugal ainda está aquém do ideal de igualdade real.

Nas eleições legislativas de 2025, as mulheres eleitas para a Assembleia da República representaram cerca de 34% dos deputados, um valor abaixo do limiar mínimo de paridade (40%) definido pela Lei da Paridade. Quando olhamos para a composição dos Governos, mesmo nos mais recentes, o cenário tem sido semelhante.

Estas lacunas não se restringem ao nível nacional. A sub-representação é ainda mais notória em cargos locais, como nas câmaras municipais, onde, após as eleições de outubro de 2025, as mulheres lideram apenas 16% dos executivos municipais. Nas eleições anteriores, em 2021, representavam 9%. O progresso existe, mas não ao ritmo imposto pela letra da lei e pelo espírito constitucional.

Mas não é só o setor público que revela esta triste realidade. Ainda que, desde 2017, existam quotas nos conselhos de administração e fiscalização das empresas cotadas em Portugal, segundo dados de novembro de 2025, apenas 17% dos cargos executivos destas empresas são ocupados por mulheres.

Este padrão reflete obstáculos que persistem para além do plano legislativo. As mulheres continuam a enfrentar maiores dificuldades no acesso a redes informais de decisão, maior escrutínio mediático e desafios acrescidos na conciliação entre vida política, profissional e familiar. Estes fatores contribuem para trajetórias mais instáveis e para uma menor probabilidade de progressão.

Se os números mostram progressos, também revelam que ainda há um longo caminho para trilhar. Por isso, a discussão não pode limitar-se às quotas. A representação equilibrada exige investimento continuado em formação, desenvolvimento de competências, criação de redes de apoio e promoção de ambientes institucionais mais inclusivos. É necessário garantir, não apenas a entrada das mulheres na política, mas também as condições para que permaneçam, influenciem e liderem.

Uma democracia verdadeiramente representativa é aquela em que todas as pessoas têm condições reais para participar e decidir.